Prática clínica
Como calcular as necessidades energéticas de um paciente
Equipa beryvo · · 8 min de leitura
Quase todos os planos alimentares partem de uma estimativa do gasto energético do paciente. É uma estimativa: as equações preditivas foram construídas a partir de grupos de pessoas e erram, para mais ou para menos, em muitos indivíduos. Por isso o valor calculado é um ponto de partida, a confirmar com a evolução do peso nas semanas seguintes.
TMB, fator de atividade e GET
O cálculo faz-se em dois passos. Primeiro estima-se a taxa metabólica basal (TMB), a energia gasta em repouso. Depois multiplica-se a TMB por um fator de atividade física, o que dá o gasto energético total (GET). O valor alvo do plano resulta do GET ajustado ao objetivo: manter, perder ou ganhar peso.
GET = TMB × fator de atividade
Mifflin-St Jeor (1990)
Homens: TMB = 10 × peso (kg) + 6,25 × altura (cm) − 5 × idade (anos) + 5
Mulheres: TMB = 10 × peso (kg) + 6,25 × altura (cm) − 5 × idade (anos) − 161
É hoje a equação mais usada em adultos. Na revisão da Academy of Nutrition and Dietetics (Frankenfield e colegas, 2005) foi a que mais vezes ficou a menos de 10% do gasto medido por calorimetria, tanto em adultos com peso normal como com obesidade. Usa o peso atual.
Harris-Benedict revista (Roza e Shizgal, 1984)
Homens: TMB = 88,362 + 13,397 × peso + 4,799 × altura − 5,677 × idade
Mulheres: TMB = 447,593 + 9,247 × peso + 3,098 × altura − 4,330 × idade
A versão original, de 1919, tende a sobrestimar o gasto, sobretudo em pessoas com excesso de peso. A revisão de 1984 corrige parte desse desvio e continua a ser muito usada, mas em adultos a Mifflin-St Jeor costuma aproximar-se mais do valor medido.
FAO/OMS/UNU (1985)
Estas equações usam só o peso, por faixa etária e sexo. São úteis quando não tem a altura, e continuam a ser referência em muitos documentos de saúde pública.
| Idade | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| 10 a 18 anos | 17,5 × peso + 651 | 12,2 × peso + 746 |
| 18 a 30 anos | 15,3 × peso + 679 | 14,7 × peso + 496 |
| 30 a 60 anos | 11,6 × peso + 879 | 8,7 × peso + 829 |
| Mais de 60 anos | 13,5 × peso + 487 | 10,5 × peso + 596 |
Fator de atividade
O fator de atividade transforma a TMB em gasto total. Os valores mais usados em consulta são estes:
| Nível | Descrição | Fator |
|---|---|---|
| Sedentário | Pouco ou nenhum exercício | 1,2 |
| Leve | Exercício ligeiro 1 a 3 vezes por semana | 1,375 |
| Moderado | Exercício moderado 3 a 5 vezes por semana | 1,55 |
| Ativo | Exercício intenso 6 a 7 vezes por semana | 1,725 |
| Muito ativo | Exercício muito intenso ou trabalho físico | 1,9 |
É aqui que se erra mais. Muitas pessoas sobrestimam o exercício que fazem: pergunte o que fizeram na última semana, dia a dia, em vez de «quanto exercício faz».
Exemplo completo
Mulher de 35 anos, 65 kg, 165 cm, que treina três a quatro vezes por semana (fator moderado, 1,55).
| Equação | TMB | GET (× 1,55) |
|---|---|---|
| Mifflin-St Jeor | 1345 kcal | 2085 kcal |
| Harris-Benedict revista | 1408 kcal | 2183 kcal |
| FAO/OMS/UNU | 1395 kcal | 2161 kcal |
Na Mifflin-St Jeor: 10 × 65 + 6,25 × 165 − 5 × 35 − 161 = 650 + 1031,25 − 175 − 161 = 1345 kcal. As três equações ficam a menos de 100 kcal umas das outras, o que é habitual num adulto saudável com peso normal. Se o objetivo for perder peso, um défice de 300 a 500 kcal por dia é um ponto de partida comum, a ajustar ao paciente.
Cuidados na prática
- Reavalie ao fim de duas a quatro semanas: se o peso não evolui como previsto, o GET real é outro.
- Em atletas, idosos, grávidas, crianças e em situações de doença, as equações gerais erram mais. Quando houver calorimetria indireta disponível, prefira o valor medido.
- Registe a equação e o fator que usou. Na consulta seguinte, compara com os mesmos critérios.
- Distribua o valor alvo pelos macronutrientes de acordo com o objetivo e as preferências do paciente, não apenas por percentagens fixas.
Na beryvo, o cálculo nutricional está na ficha do paciente, com as três equações e os cinco níveis de atividade. O objetivo de energia e de macronutrientes passa diretamente para o plano alimentar, onde vê em tempo real quanto falta para o alvo do dia.
Fontes
- Mifflin MD, St Jeor ST, et al. A new predictive equation for resting energy expenditure in healthy individuals. Am J Clin Nutr. 1990;51(2):241-7.
- Roza AM, Shizgal HM. The Harris Benedict equation reevaluated: resting energy requirements and the body cell mass. Am J Clin Nutr. 1984;40(1):168-82.
- FAO/WHO/UNU. Energy and protein requirements. WHO Technical Report Series 724. Genebra; 1985.
- Frankenfield D, Roth-Yousey L, Compher C. Comparison of predictive equations for resting metabolic rate in healthy nonobese and obese adults: a systematic review. J Am Diet Assoc. 2005;105(5):775-89.