Prática clínica
Anamnese nutricional: o que perguntar, com modelo pronto a usar
Equipa beryvo · · 7 min de leitura
A anamnese nutricional é a recolha organizada da história do paciente: porque vem, que doenças e medicação tem, como come, como vive e o que espera. Um bom modelo de ficha tem cinco blocos (identificação e motivo, história clínica, história alimentar, estilo de vida e objetivos) e cabe em duas páginas. Abaixo está o que perguntar em cada bloco e, no fim, o modelo completo, pronto a copiar.
Este artigo trata da ficha. Para o guião da consulta em si, veja o guião da primeira consulta de nutrição.
O que é a anamnese e para que serve cada parte
No modelo do processo de cuidados nutricionais da Academy of Nutrition and Dietetics, a avaliação nutricional junta cinco domínios: história alimentar e nutricional, dados bioquímicos e exames, antropometria, achados do exame físico e história do paciente (pessoal, clínica, familiar e social). A anamnese cobre sobretudo o primeiro e o último; o resto faz-se na consulta ou chega com as análises.
| Parte da ficha | Para que serve |
|---|---|
| Identificação e motivo | Contexto e o problema que o paciente quer resolver, nas palavras dele |
| História clínica | Patologias, fármacos e análises que mudam o plano ou pedem articulação com o médico |
| História alimentar | O ponto de partida real: o que come, quando, onde e com quem |
| Estilo de vida | O que o plano tem de respeitar: horários, sono, treino, stress |
| Objetivos e expectativas | O que se combina e como se vai medir o progresso |
Uma regra simples para cortar perguntas: cada campo da ficha tem de mudar alguma coisa no plano ou no acompanhamento. Se não muda nada, sai. Isto poupa tempo e respeita o princípio da minimização dos dados do RGPD: dados adequados, pertinentes e limitados ao necessário.
Identificação e motivo da consulta
Nome, data de nascimento, sexo, contactos, profissão e quem encaminhou o paciente. A profissão diz mais do que parece: turnos, trabalho sentado ou físico, refeições fora.
O motivo da consulta pergunta-se em texto livre: «O que o traz à consulta?». A resposta nas palavras do paciente mostra o que o preocupa de facto (a roupa que deixou de servir, um valor de colesterol, o cansaço). Junte uma pergunta sobre acompanhamentos anteriores e o que levou a desistir.
História clínica
Doenças e cirurgias
Patologias diagnosticadas (diabetes, hipertensão, dislipidemia, doença renal, doença da tiroide, doença celíaca, perturbações do comportamento alimentar), cirurgias (sobretudo digestivas e bariátrica), doenças na família, sintomas digestivos e, quando se aplica, gravidez, amamentação ou menopausa.
Peça também a história do peso: máximo e mínimo em adulto, variações no último ano e dietas anteriores. Uma perda de peso recente e involuntária é um sinal a investigar com o médico.
Medicação e suplementos
Nome, dose e há quanto tempo toma. Vários fármacos interferem com o apetite, o peso, a glicemia ou a absorção de nutrientes. Pergunte pelos suplementos em separado («Toma vitaminas, proteína em pó, chás ou produtos para emagrecer?»), porque muitos pacientes não os consideram medicação. Qualquer alteração à medicação é decisão do médico.
Análises recentes
Peça as análises mais recentes e registe a data de cada uma: um valor sem data pouco serve para comparar. Conforme o caso, interessam a glicemia e a HbA1c, o perfil lipídico, a função renal e hepática, o hemograma, a ferritina, a vitamina B12, a vitamina D e a TSH. Se faltam análises necessárias, articule com o médico assistente.
História alimentar
Recordatório ou dia típico
O recordatório das 24 horas (o que comeu e bebeu ontem) é mais concreto. O dia típico é mais rápido, mas tende a descrever o dia que o paciente gostaria de ter. Num formulário, o dia típico com horas e locais funciona bem; na consulta, aprofunde com um recordatório em várias passagens. Os métodos estão explicados em recordatório das 24 horas e questionário de frequência alimentar.
Frequência
Não precisa de um questionário de frequência alimentar completo. Bastam perguntas curtas sobre o que mais pesa no plano: fruta e hortícolas por dia, peixe e leguminosas por semana, refeições fora de casa, doces, snacks, refrigerantes e sumos, álcool, café e água.
Preferências, aversões, alergias e intolerâncias
Separe três coisas que os pacientes costumam misturar: alergia alimentar (reação do sistema imunitário, que deve ter diagnóstico médico), intolerância (por exemplo, à lactose) e aversão ou simples preferência. Pergunte quem fez o diagnóstico. Junte o padrão alimentar (vegetariano, vegano, restrições religiosas), quem cozinha e faz as compras, e o orçamento.
Estilo de vida
- Sono: horas por noite, hora de deitar e de acordar, se acorda cansado.
- Atividade física: tipo, vezes por semana e duração, e quanto anda a pé no dia a dia.
- Stress: numa escala de 1 a 10, o que o provoca e se come mais ou menos nessas alturas.
- Horários de trabalho: turnos, noites, deslocações e tempo disponível para almoçar.
- Tabaco e consumo de álcool.
Estas respostas decidem a estrutura do plano: um paciente com turnos rotativos precisa de opções para cada turno, não de um horário fixo de refeições.
Objetivos e expectativas
Pergunte o objetivo principal, o prazo que o paciente imagina e o que está disposto a mudar já. Uma pergunta de escala ajuda: «De 1 a 10, quão preparado se sente para mudar agora?». Se a expectativa não for realista (10 kg num mês para um casamento), é aqui que se conversa, antes de desenhar o plano.
O modelo
Copie para um formulário ou documento. Os campos com (*) são o mínimo para a primeira consulta.
1. Identificação e motivo
- Nome completo (*)
- Data de nascimento e sexo (*)
- Telemóvel e email (*)
- Profissão e horário de trabalho
- Como chegou à consulta (médico, amigo, internet, outro)
- O que o traz à consulta? (*)
- Já teve acompanhamento nutricional? O que correu bem e o que correu mal?
2. História clínica
- Doenças diagnosticadas (*)
- Cirurgias: quais e quando
- Doenças na família (diabetes, doença cardiovascular, obesidade, outras)
- Medicação: nome, dose e desde quando (*)
- Suplementos, vitaminas, chás ou produtos para emagrecer
- Alergias alimentares e quem as diagnosticou (*)
- Intolerâncias alimentares (*)
- Sintomas digestivos: obstipação, diarreia, refluxo, inchaço
- Peso atual aproximado, peso máximo e mínimo em adulto
- Análises do último ano (anexar, com a data)
- Quando se aplica: ciclo menstrual, gravidez, amamentação, menopausa
3. História alimentar
- Descreva um dia normal: a que horas come, onde e o quê, sem esquecer as bebidas (*)
- E ao fim de semana, o que muda?
- Quantas peças de fruta come por dia? E sopa, salada ou legumes?
- Quantas vezes por semana come peixe? E leguminosas (feijão, grão, lentilhas)?
- Quantas refeições faz fora de casa por semana? E doces ou snacks?
- Quanta água bebe por dia? Café, refrigerantes e sumos?
- Álcool: o quê e quantas vezes por semana
- Alimentos de que gosta muito e alimentos que não come
- Segue algum padrão alimentar (vegetariano, vegano, outro)?
- Quem cozinha e quem faz as compras?
4. Estilo de vida
- Horas de sono por noite e se acorda descansado (*)
- Atividade física: tipo, vezes por semana e duração (*)
- Nível de stress, de 1 a 10
- Fuma?
- Come de forma diferente quando está stressado, cansado ou aborrecido?
5. Objetivos
- Objetivo principal (*)
- Em quanto tempo gostaria de o atingir?
- O que está disposto a mudar já?
- De 1 a 10, quão preparado se sente para mudar?
- Há mais alguma coisa que queira que eu saiba?
Enviar antes da consulta ou preencher na consulta
As duas opções funcionam; depende do paciente e do tipo de consulta.
| Aspeto | Enviar antes | Preencher na consulta |
|---|---|---|
| Tempo | A consulta começa no que interessa, sem ditar dados de identificação | Ocupa parte da primeira consulta |
| Qualidade | O paciente consulta com calma as caixas dos medicamentos e as análises | Perguntas abertas mais completas, com seguimento na hora |
| Preparação | Chega à consulta com hipóteses e perguntas preparadas | Começa do zero |
| Indicado para | Consultas online, pacientes habituados a formulários | Pessoas idosas, pouca literacia digital, temas sensíveis |
Uma solução intermédia funciona bem: envie a parte factual (identificação, doenças, medicação, alergias e análises) dois ou três dias antes, como formulário online ou documento, e deixe a história alimentar, a relação com a comida e os objetivos para a conversa.
Se enviar um formulário, use um canal seguro (nunca um documento partilhado sem controlo de acesso), explique no início para que servem os dados e quem os vê, e não peça mais do que vai usar. Respostas por email ou WhatsApp acabam espalhadas: passe-as para a ficha e apague as cópias. Os cuidados com dados de saúde estão em RGPD para nutricionistas.
Este modelo é um ponto de partida para profissionais e deve ser adaptado à população que acompanha (crianças, grávidas, atletas, doença renal). Não substitui a avaliação individual nem a articulação com o médico assistente quando há doença ou medicação.
Na beryvo, a ficha do paciente tem um separador de histórico clínico com estes campos (patologias, alergias e intolerâncias, medicação, histórico familiar, hábitos, sono, atividade física e objetivo), e as análises ficam guardadas nos documentos. Se já tem pacientes numa folha de cálculo, importa-os de uma vez a partir de um ficheiro CSV ou Excel.
Fontes
- Swan WI, Vivanti A, Hakel-Smith NA, et al. Nutrition Care Process and Model Update: toward realizing people-centered care and outcomes management. J Acad Nutr Diet. 2017;117(12):2003-14.
- Regulamento (UE) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados), artigos 5.º, n.º 1, alínea c), 9.º e 13.º.